O futebol e a mídia

Desde a década de 1980, a venda dos direitos de transmissão dos jogos de futebol tornou-se, globalmente, uma das principais receitas dos clubes, definindo a distribuição dos capitais financeiro, midiático e simbólico que refletiu o processo de reestruturação na maneira de acumulação do sistema capitalista.

Enquanto as técnicas informacionais se tornaram um marco histórico para o futebol, a sua inserção na indústria do espetáculo garantiu enormes retornos financeiros aos meios de comunicação. Popularizado por meio do rádio, foi com a crescente participação da televisão que o ludopédio se tornou uma valiosa mercadoria.

No Brasil, após o desmonte do investimento na estrutura das telecomunicações e do Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei Nº 4.117/1962), a Lei Geral de Telecomunicações (Lei Nº 9.472/1997) flexibilizou o modelo da comunicação no país, de maneira que, em caráter concorrencial, as grandes corporações passaram a disputar territórios onde há maior retorno financeiro, enquanto a expansão da rede e a universalização do acesso foram delegadas ao sistema público, desmontado intencionalmente por governos neoliberais subsequentes (Fernandes; Pasti, 2022).

A desregulamentação da mídia e do setor audiovisual, sobretudo com o advento da internet, contribui para a ampliação do domínio de agentes globais sobre o mercado dos direitos de imagem, que parece se diversificar, impulsionado pelo avanço das plataformas digitais. No Brasil, é perceptível que estas corporações vêm ampliando sua atuação, sejam grupos tradicionais de comunicação, como a Disney, a Warner Discovery e a Paramount, ou outros mais recentes, como a Amazon (Twitch e Prime Video), a Alphabet (Google) e o Grupo Meta (Facebook e Instagram). 

Em contrapartida, destaca-se a relevância do Grupo Globo, que mantém há décadas importante papel na transmissão do futebol no território brasileiro. Sem limites legais definidos, a família Marinho mantém, até hoje, o controle de cinco geradoras próprias em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Recife (PE), Belo Horizonte e Brasília (DF), além de outras 115 emissoras afiliadas em todas as 27 unidades da federação. Estes dados são da pesquisa Monitor Ownership Media Brasil (Intervozes, 2018), que revelou ainda uma concentração midiática no Sudeste e no Sul do país, regiões que abrigam mais de 80% das sedes dos 50 maiores veículos de comunicação nacionais.

Antes vistos como prejudiciais à presença de público nos estádios, os direitos de imagem tornaram-se uma das principais fontes de receita das equipes de futebol, capazes de mover novas etapas de estruturação. Do ponto de vista de quem torce, há desde então uma série de mudanças nos padrões de acompanhamento dos clubes de afeição. Percebe-se, por exemplo, um aumento do consumo de vários produtos relacionados ao futebol e a migração da experiência presencial em estádios para outra, mediada por tecnologias digitais controladas pelo capital global do setor infocomunicacional.

É dessa lógica neoliberal que surgem os distintos formatos de clube-empresa, as reformulações dos programas de sócio torcedor, as ligas privadas e as “arenas multiuso”, sendo o projeto midiático do futebol parte da oferta do conteúdo audiovisual enquanto entretenimento (Santos, 2021a).

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