Por um Observatório dos Direitos de Transmissão dos Futebóis no Brasil

A venda dos direitos de transmissão no contexto da concentração da mídia e das plataformas digitais na TV e no streaming

* Por Iago Vernek Fernandes (Intervozes) e Anderson Santos (CEPCOM/UFAL)

Desde a década de 1980, a venda dos direitos de transmissão dos jogos de futebol tornou-se, globalmente, uma das principais receitas dos clubes, definindo a distribuição dos capitais financeiro, midiático e simbólico que refletiu o processo de reestruturação na maneira de acumulação do sistema capitalista desde a década anterior. 

Esse processo demarcou a extensão da mercantilização sobre elementos culturais, como o futebol, o aumento da importância da indústria audiovisual no campo econômico e o avanço das tecnologias digitais de informação e comunicação para agilizar processos econômicos e possibilitar novas possibilidades de exibição e, consequentemente, concorrência.

Do ponto de vista de quem torce, há desde então uma série de mudanças nos padrões de acompanhamento dos clubes de afeição. Isso vem com o aumento do estímulo ao consumo de vários produtos, inclusive de fora do jogo, e a migração da experiência presencial em estádios – esta também com alterações a partir do modelo de arenas e dos programas de sócio-torcedores – para outra, mediada por tecnologias digitais controladas pelo capital privado do setor infocomunicacional.

A desregulamentação da mídia e do setor audiovisual, com a internet ainda desregulada quanto ao conteúdo, contribui para que, em geral, alguns agentes globais dominem o mercado dos direitos de imagem, sejam grupos tradicionais de comunicação, como a Disney, a Warner Discovery e a Paramount; ou outros mais recentes, como a Amazon (Twitch e Prime Video), a Alphabet (Google) e o Grupo Meta (Facebook e Instagram). No Brasil, é perceptível que estas corporações vêm ampliando sua atuação, impulsionada pelo avanço das plataformas digitais. 

Em contrapartida, destaca-se a relevância do Grupo Globo, que mantém há décadas importante papel na transmissão do futebol no território brasileiro. A empresa, que costuma ter seus interesses comerciais favorecidos pelas instituições reguladoras do esporte, chegou a controlar quase metade das exibições entre 2016 e 2017, detendo o monopólio da exibição das principais competições nacionais, como a Série A do Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil, bem como de torneios internacionais de seleções, como a Copa do Mundo FIFA.

Ainda assim vivemos anos de abertura da Globo quanto à transmissão do futebol, com saída de direitos e, mesmo com uma volta a partir de 2022, sem a exclusividade para todas as mídias do conglomerado e, como vemos no atual mundial de futebol de mulheres, sem até mesmo ter todos os jogos de um megaevento como passível de sua transmissão. Gastasse, mas, diferentemente de outrora, de forma direcionada, o que também abre espaço para outros agentes.

Em 2023, enquanto afiliadas da Globo transmitiram os campeonatos de sete estados, Record (3), Band (2) e SBT (2) controlam outros sete torneios. Onde há pouca concorrência, a mídia público-estatal se destacou: TVE na Bahia, TV Cultura no Pará, TV Educativa no Espírito Santo, TV Assembleia do Paraná, TV Assembleia de Tocantins e TV Assembleia de Roraima – com a TV Universitária de Pernambuco e a TV Aperipê de Sergipe como pioneiras nesses estados. 

Se os grupos nacionais acirram a competição pela audiência em TV aberta, com alguns direitos aparecendo em SBT (Champions League e Copa Sul-Americana) e Band (Série B do Campeonato Brasileiro), na rede por assinatura, conglomerados globais marcam presença constante. 

 

Diante dos desafios que envolvem o futebol e a mídia, suas relações intrínsecas e mantenedoras, o Observatório dos Direitos de Transmissão dos Futebóis no Brasil surge com a proposta de ser um espaço unificador de descrição, análise, debate e pesquisas em rede sobre as dinâmicas do campo social do futebol profissional, desde sua relação com a indústria cultural, que o transformou em “espetáculo midiático”, considerando toda a diversidade e pluralidade que envolvem os futebóis praticados.

O projeto será desenvolvido pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e pelo grupo de pesquisa Crítica da Economia Política da Comunicação (CEPCOM), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em parceria com pesquisadores e jornalistas dedicados a discutir a transmissão de futebol no Brasil.

Num primeiro ciclo, até fevereiro de 2024, buscaremos realizar um mapeamento histórico da exibição dos futebóis profissionais via TV aberta, fechada e plataformas digitais no Brasil, considerando o masculino e o futebol de mulheres. Para isso, agrega-se à revisão de literatura como procedimento para coleta de dados a pesquisa documental em fontes secundárias (sites noticiosos, de clubes e federações) e outras metodologias de análise histórica, descritiva e comparativa. 

Através de uma plataforma online, em processo de construção, pretende-se ainda criar um repositório digital (mapas, tabelas, gráficos, notícias, artigos, relatórios, entre outros elementos audiovisuais), articular grupos de pesquisa para estudo de determinado momento histórico, tema, campeonato ou região, além da produção de podcast e organização de seminários e rodas de conversa.

É jornalista, pesquisadora ou pesquisador de futebol e tem interesse no tema? Junte-se a nós enviando e-mail para anderson.gomes@santana.ufal.br com o motivo de querer entrar no Observatório e a disponibilidade para construir conosco a primeira pesquisa coletiva.